"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Espírito das Conferências


É altura de retomar os exemplos do passado.
É o momento de assumir novas responsabilidades e desafios.
É o presente de construir a visão do futuro:
Portugal...
É Hora!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Condição de Ser Homem

Respira connosco uma saudade escondida...desde o primeiro momento. Envelhece-nos um vazio, disfarçado dentro de nós - é aquele tempo que já foi. Apanhou-nos desprevenidos e fugiu para um passado terminado e sem retorno. A alegria de viver alimenta-se do nosso tempo e gasta-o sem hesitações, cavando impiedosamente o buraco das horas vividas e agora mortas. A nossa alegria vai adormeçendo com as noites e morrendo com os dias e o vazio cresce e nós escondemo-nos, mas já não o disfarçamos.

E é esta condição de existir que distingue os verdadeiros dos falsos homens. É neste fado que escolhemos o que somos e o que queremos ser.

Os Homens de Coragem e Vitória reconhecem o vazio dentro de si, mas aspiram à plenitude das coisas. Vivem para ela, reflectem-na nos seus pensamentos e agem em verdade com o que pensam. São aqueles que vêm o Mundo e os outros como um só. A Humildade é a sua fonte de Vida. Os outros a sua razão de viver. Por este ideal dispôem-se a sofrer penas, a combater os seus dias e a dar a sua alegria. No final do caminho o vazio já não é mais... encheu-se com a alegria dos outros e neles os seus passos continuam-se. São os Homens de Verdadeira Honra, inconformados com este mundo e dispostos a construi-lo e reconstrui-lo, à imagem de um outro melhor.

Outros há que se resvalam no vazio e cedem à morte do seu ser. São os homens da cobardia e derrota. Não aspiram, mas curvam-se para dentro de si. Sobrevivem em ganância, abstêem-se do pensamento e reagem apenas aos caprichos de um momento egoísta. Vêem neles o mundo todo, deixando os outros fora da equação. A mesquinhez é a sua fonte de sobrevivência. O vazio em si é a razão para não viver, mas antes para sub-viver. Colocam os outros ao seu dispôr e encontram na realidade os motivos para as suas acções e amoralidades. São homens pequenos e de falsidade, conformados com este mundo, cedendo ao seu vazio. Não agem... reagem. Não pensam... calculam. Não criam... apenas desgastam. São os construtores de si apenas... os verdadeiros sub-viventes. E no final, o seu vazio é tudo e nele tudo se fina em morte anunciada.

Hoje prevalece e dissemina-se a apologia do vazio por todo um povo pigmeu e triste - um povo de homens da terra.

Mas não cedamos! Encontremos ânimo nesta saudade que connosco respira e continuemos a obra, com mãos de Verdade e Honra - O Povo Dos Homens Na Terra .

terça-feira, 10 de março de 2009

O Eça de Hoje

“E os dois amigos sentaram-se num banco, junto de uma verdura que orlava a água de um tanque esverdinhada e mole.

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um olá! Acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Q faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…

- Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta – imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado – imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução – imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman…

Carlos ria:
- De modo que isto está cada vez pior…

- Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!

Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que é genuíno…

E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregando pelas encostas ressequidas e tisnadas do Sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palecetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga! (…)

- E aqui tens tu, Carlinhos, a que chegámos! Não há nada com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal(…).”

"Os Maias" de Eça de Queirós

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Está bem...façamos de conta


Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média.

Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo.

Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus.

Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso.

Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

in JN 10/02/2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Injusto Pecador

É um mundo desconcertadamente concertado! Acordo todas as manhãs com saudade de adormecer. O que me espera é mais um sol escondido e arrefecido.

Disserem-me um dia que a vida compromete-se com as escolhas e decisões que vamos arriscando e conquistando, nos nossos dias. Só que hoje, Risco é uma palavra condenada; a Conquista uma expressão antiquada; Escolha uma arte de simples egoísmo; Compromisso uma ingenuidade idealista; e a Vida afinal apenas flui por esses dias, em águas calmas e mornas, sem queimar ou gelar.

Não existe caminhos a tomar! Já dizia o outro "Camarada, o caminho faz-se caminhando!", num comodismo atroz, de quem não se guia, mas é guiado. E o que será, será! Não ocupes a tua cabeçinha com ideias, valores e fés. Ocupa-a antes com o que queres ter e com o que podes ter ainda mais e também até com o que não queres ter, mas um dia vais querer. Não interessa ser alguém...interessa parecer alguma coisa. E para tal esquece a Verdade e a Mentira, o Bem e o Mal, o Justo e o Injusto.

Para parecer não tens que escolher um lado, nem preto, nem branco. É mais fácil não escolher.
Para parecer, não tens que te comprometer com nada, nem com o que afirmas, nem com o que negas. É Mais fácil não comprometer.
Para parecer, não tens que arriscar, nem o que tens, nem o que aparentas ter. É mais fácil não arriscar.
Para parecer, não tens que conquistar, nem vitórias e muito menos derrotas. Descansa!

Do preto ou branco, cai-nos melhor o cinzento. Da Verdade e da Mentira preferimos a mais conveniente inverdade. Do Bem e do Mal usamos o politicamente correcto. Do Justo e do Injusto, vestimos o que está mais à nossa imagem e semelhança, conforme os dias.
Na verdade, ou melhor, no politicaente correcto, o Justo está fora de moda! E o Pecador é algo do tempo dos profetas de barbas longas e sujas e vestes rotas e poeirentas.


Ter e Parecer, Parecer e Ter, estes são os novos polos do nosso tempo que equilibram o limbo das nossas vidas. Podemos fazer uma asneirita ou uma maldadezinha desde que ninguém as veja "Psssst... fica caladinho que assim ainda te safas. O quê? Consciência pesada? Não sejas tolo pá...e não te esqueças de dizer que dormes todas as noites com ela bem tranquila!"

E assim, quem não escolhe nenhum dos lados, quem não arrisca ou assume a sua vida de Ser, no final também não terá que responder a ninguém sobre o que ele parece, nem dar satisfações sobre o que é, pois na verdade, o pecador não o é, apenas o aparenta ser - nega a sua própria natureza. Sem compromisso de Ser não há responsabilidades a assumir. E, confrontado com a Verdade, o Bem e a Justiça, sem respostas nem culpas, apresenta-se como um Injusto Pecador.

Nunca gostei de parecer o que não sou. Acredito no Ser, sem ter necessidade de o parecer. Ao longo do caminho que vou trilhando pelo meu mapa, ainda encontro quem goste de ser comigo. Tento reduzir o meu mundo a eles. Ainda acredito em profetas! Aqueles que assumem e pagam caro pela sua verdade que acreditam e profetizam. Cada vez menos são eles...cada vez mais silenciadas são as suas vozes...mas Injustos Pecadores, esses leva-os o vento para bem longe da história.


É este o meu mundo concertado! Deito-me todas as noites com saudade de acordar. O que me espera é mais uma lua cheia, que ilumina sempre, bem lá no alto, a minha Verdade de Apenas Ser.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Jovens - Entre a Espada e a Parede

Existe vida nos jovens portugueses!

Este “grito” é sussurrado por muitos e ouvido por poucos. Para alguns, trata-se de uma falsa questão – a voz dos jovens está bem salvaguardada num Ministério da Juventude, nas juventudes dos partidos políticos, ou até nas associações académicas e outras organizações.
Para outros, a Juventude está perdida, completamente alheada da realidade e só resta ao país esperar uns anos para que ela simplesmente cresça e se torne completamente adulta.

Sendo assim, sinto-me encurralado entre a espada e a parede, obrigado a escolher uma delas. A espada aponta em direcção a uma atitude política activa que inevitavelmente nos obrigará a alinhar no autismo da partidocracia, instalada na nossa tão democrática Assembleia da República:
A esquerda, dita tolerante e universal, que assume a arrogância de se autoproclamar a única portadora natural dos valores de justiça social (todos os outros que não partilham a sua visão são retrógradas, reaccionários de vistas curtas); obriga “voluntariamente” os jovens a sair para as ruas, manifestar a sua indignação, "grafitar" paredes com frases profundas de indignação e aparecer na televisão, sempre acompanhados com os símbolos essenciais do seu "marketing": as cores vermelha e preta nas bandeiras, a irreverência de uns tambores e artes circenses de rua, a inevitável camisola com o Che estampado, o aspecto intelectual e esclarecido que uma barba bem despenteada e um belo par de óculos podem proporcionar. E um dia, percorridos muitos quilómetros de rua e gritaria, poder-se-á descansar numa bela cadeira de couro, nas trincheiras da bancada parlamentar do partido.

Mas, para quem não tem grande jeito nem paciência para malabarismos de rua, pode ainda recorrer às outras famílias partidárias, mais à direita. Aí não se pede muitos quilómetros nas pernas, mas apenas o estar no sítio certo, à hora certa, com um “cafezinho” pronto a servir e a disponibilidade total para tirar fotocópias e fazer recados ao seu superior e mentor partidário – ter um bom padrinho é meio caminho andado para a tão ansiada cadeira – entretanto, tira-se uma licenciatura por encomenda, porque ser Doutor dá outra credibilidade. Com uma boa cunha, o parlamento “tá no papo”.

Não querendo esta espada, resta-me a parede, onde me encosto à passividade e desinteresse total, ao mesmo tempo que vou engordando com tudo o que a televisão me alimenta. Eventualmente um dia abrirei os olhos, tornar-me-ei produtivo para a sociedade, pagarei impostos e descontarei para a segurança social. Serei finalmente um adulto de corpo e alma, mas sempre encostado à parede.

Em última análise, é a própria parede quem acaba por ajudar a manter a espada bem afiada.
No entanto, mesmo sendo ainda jovem, aprendi a dar valor ao carácter e mérito demonstrado por cada indivíduo nas suas acções. Chamem-me precoce, se assim o desejarem, mas recuso pegar na espada ou encostar-me à parede. Permaneço no limbo dos órfãos de uma Voz; daqueles que todos os dias lêem o jornal e vivem o País. Vivem-no para dentro, porque cá fora já existe quem “oficialmente” fale por eles. É a chamada democracia dos que a representam e não dos seus representados.

Nós, os jovens tolos que vivemos o nosso Portugal para dentro, contrariamente ao que se quer fazer crer, não somos uma espécie em vias de extinção, mas antes, um estado de alma em vias de expansão.

Para já, resta-nos sussurrar este “grito” até que alguém nos ouça. E se sussurrar não for suficiente, talvez escrever o seja:

E-X-I-S-T-E V-I-D-A E-M N-Ó-S.


Porto, 09/07/2008