"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lembrar é Perder.

Os tempos de criança, sempre os tive como a altura da vida mais propícia à felicidade plena, precisamente, pelo simples facto de, durante eles, não se ter a tentação de pensar e calcular condições e critérios para se ser feliz.

Quando era menino, não tinha memórias ou recordações. Não as tinha, porque, antes desse tempo, eu simplesmente não era. Se hoje eu vivo preso ao que já fui e ao que quero ser, na infância eu simplesmente vivia todo o meu tempo, sem passado ou futuro – enchia o meu presente com a minha existência, em brincadeiras genuínas e imaginação livre – os sonhos eram vividos como os dias.

Aos olhos de um petiz tudo é grande e naturalmente bom. Conquistamos o mundo em cada alvorada promissora, colocando em cada gesto tudo o que somos, sentimos e pensamos – impomos a simplicidade da verdade à nossa realidade e à de quem nos rodeia, como se exigíssemos das coisas vivas e até das outras, as inanimadas, a sua entrega e rendição totais.

Talvez por isso, já adultos e vencidos, vemos no sorriso de uma criança a saudade incontornável de sermos realmente bons e arrogamo-nos a menosprezá-la, tentando assim convencermo-nos de que somos mais e melhor do que o que já fomos em tempos antigos, quando ainda não tinhamos um passado. No entanto, entre esse passado e o presente, escapou-nos aquele sorriso doce e meigo.

Deixámos de viver essa felicidade... apenas a lembramos. Algures pelo caminho começámos a pensá-la e, logo ali, sem darmos conta disso, perdêmo-la para sempre.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O PALHAÇO



O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco.E diz que não fez nada.
O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado.
O palhaço é um mentiroso.
O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto.
O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços.
O palhaço coloca notícias nos jornais.
O palhaço torna-nos descrentes.
Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si.

O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico, seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo.
Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa.
O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros, vociferando insultos.

O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas.
O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também.

O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem.
O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres.
O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada. Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar, como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria.
E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais, saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar. E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha.

O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político.
Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar.

A escolha é simples. Ou nós, ou o palhaço.

Mario Crespo in JN

terça-feira, 30 de março de 2010

NÃO HÁ PÁTRIA SEM HERÓIS.

ASSOCIAÇÃO PARA O MOMUMENTO DE HOMENAGEM AOS MILITARES DO PORTO QUE COMBATERAM NO ULTRAMAR

Na Cidade do Porto não há memorial que recorde os combatentes que nasceram neste Concelho, ao contrário de muitas povoações de Portugal, em que já existem Monumentos que perpetuam e honram a memória dos seus filhos que, na condição de Soldados, nas últimas décadas do Século XX, cumpriram o seu Dever e sacrificaram a vida no Ex-Ultramar.

Alguns camaradas de armas destes combatentes, não se conformaram com esta situação e propuseram-se reparar esta omissão. Com espírito de "Missão", meteram ombros à tarefa.
O primeiro passo foi criar uma Associação. Assim nasceu a denominada "Associação para o Monumento de Homenagem aos Militares do Porto que Combateram no Ultramar”.
Esta Associação tem como único objecto, erigir um Memorial, na cidade do Porto, que torne perene a Memória dos soldados portuenses que pereceram no cumprimento do seu Dever. Ela extinguir-se-á após a inauguração do Monumento.

Membros da Direcção da Associação começaram então a trabalhar na selecção de um local apropriado para erigir o Monumento. Dado que várias entidades deveriam aprovar e supervisionar este empreendimento, em todas as suas vertentes, a pesquisa teve que ser criteriosa e cuidada, o que causou demora inevitável.
Após inúmeras diligências efectuadas, a Direcção desta Associação acredita que o Projecto entrou agora na recta final.

O Memorial não será nem majestático, nem sumptuoso, mas em toda a Sua singeleza, será, com certeza, Digno. Não se abdicará de O inaugurar com pompa e circunstância.
Ele deverá ser edificado junto à Muralha Norte da Fortaleza de São João da Foz do Douro. Esta terá, assim, o Seu historial engrandecido e o Memorial ficará também muito bem acompanhado.

Os nomes dos combatentes mortos serão gravados no bronze do Memorial.

As entidades oficiais não nos prometeram nenhuma ajuda monetária ou outra.
Apelamos
, por conseguinte, ao auxílio de todos os Portugueses em geral e dos Portuenses, em particular.

A obra está a nascer. No entanto, para que ela cresça e se desenvolva, necessita da ajuda de todos aqueles que, ao se afirmarem Patriotas, reconhecem implicitamente que têm uma dívida de gratidão para com todos aqueles que combateram e tombaram em defesa da Pátria.

Foi para puderem concretizar a vossa ajuda, em termos monetários, que abrimos a conta Nº. 0006 2498 1089 com o NIB 0007 0000 0062 4981 0892 3, em nome da Associação Homenagem Militares – Porto, no Banco Espírito Santo – BES na delegação de S. João de Brito – Porto.
As pessoas que queiram emitir cheques, é favor endereçá-los para a sede da nossa Associação: Rua Álvares Cabral, 137 – 4050-041 Porto.
Recibos no montante das ofertas serão emitidos pela Associação.
Estamos a efectuar diligências para que as empresas também possam contabilizar os nossos recibos, ao abrigo da Lei do Mecenato. É um processo moroso, pleno de vicissitudes.

Deus Quer, o Homem Sonha, a Obra Nasce... - escrevia Fernando Pessoa.
A Obra terá que ser de todos nós.

Sede Social:
Rua Álvares Cabral, 137
4050 – 041 PORTO
Telefones para contacto: 965 211 013 – 964 076 876
E.mail:
militaresdoporto@gmail.com

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Imaginem - Mário Crespo



Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento.
Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação.
Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento.
Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas.
Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta.
Imaginem que só eram usados em funções do Estado.
Imaginem que dispensavam dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público.
Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar.
Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês.
Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha.
Imaginem que o faziam por consciência.
Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas.
Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam.
Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares.
Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas.
Imaginem remédios dez por cento mais baratos.
Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde.
Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros.
Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada.
Imaginem as pensões que se podiam actualizar.
Imaginem todo esse dinheiro bem gerido.
Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins.
Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal.
Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.
Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos.
Imaginem que país seremos se não o fizermos.

Mário Crespo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Espírito das Conferências


É altura de retomar os exemplos do passado.
É o momento de assumir novas responsabilidades e desafios.
É o presente de construir a visão do futuro:
Portugal...
É Hora!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Salve-se o Jogo...



Sou um adepto apaixonado por futebol, ferveroso seguidor do seu clube e amante incondicional da bola. Dos pontos altos da minha semana, um deles passa certamente por ir ao estádio (ainda que muitas vezes em horários incompreensiveis - Domingo às 21h15???) e vibrar com as jogadas, fintas, remates, os golos e toda a festa deste ritual quinzenal, como já tive oportunidade de descrever aqui há alguns meses atrás.

Mas, há alguns meses atrás o meu espírito alegrava-se, não apenas pelas vitórias do meu clube, como também pelo futebol jogado e discutido de então - os temas passavam sempre pelas tácticas discutíveis das equipas, o jogador A, B ou C que deveria ou não ser titular, naturalmente os erros de arbitragem inevitáveis e intrínsecos a qualquer jogo humano, os treinadores que estariam ou não à altura da equipa, o mesmo se aplicando aos presidentes e muitas outras conversas de café e de comentadores de televisão e imprensa. Que maravilha! Respirava-se futebol... vivia-se futebol... aspirava-se ao futebol... jogava-se futebol... dentro e fora das quatro linhas.

Eis que, volvido quase um ano, a bola rola, a romaria ao estádio mantém-se, as jogadas acontecem, os golos surgem e no final do jogo, fora das quatro linhas, o futebol termina, nada mais acontece que seja digno de ser considerado como parte do mundo da bola. Os assuntos do dia versam sobre novelas e episódios de um outro tipo de jogo que se vai fazendo longe dos relvados - é um jogo onde não há regras, nem espírito de vitória. É um jogo delineado à mesa com outro tipo de jogadores, definido nas secretárias de outro tipo de árbitros e que, irremediavelmente, termina dentro do campo verde, onde tudo se decide. Que desilusão! Hoje já não se respira futebol... suspira-se. Já não se vive futebol... assiste-se. Já não se aspira ao futebol... calcula-se.

Quem dera que a principal notícia fosse um Braga candidato ao título. Quem dera que o grande comentário fosse o ataque benfiquista goleador. Quem dera que a crónica se escrevesse sobre um Sporting a renascer. Quem dera que o destaque fosse para mais um grande golo do Hulk.
Não tomem este escrito como um desabafo faccioso e viciado de um portista. No início do texto não me referi ao meu FC Porto propositadamente. Sei reconhecer facilmente quando o meu clube não é o melhor em campo, tanto quanto sei reconhecer o mérito dos mais directos adversários. Considerem antes este artigo como um texto tendencioso de alguém que gosta do espetáculo dos 90 minutos, protagonizado pelos seus melhores actores. É que hoje falta-nos um dos seus melhores. Pergunto a qualquer benfiquista, sportinguista ou bracarense, se não gostava de poder ver de novo as grandes estiradas de Hulk e aqueles pontapés-canhão de pé esquerdo. Pergunto mais concretamente a qualquer benfiquista, se gostava de ver toda esta situação dúbia e incompreensível acontecer com o seu clube, impedindo um artista como o Saviola de jogar indefenidamente?

No final do dia, sobram apenas suspeições no ar, revolta dos adeptos, frustrações dos jogadores e agressões e ofensas entre clubes e seus seguidores.

É isto o futebol de Portugal! E nós somos todos com ele. Salve-se o jogo no estádio, nem que seja jogado à meia-noite de Segunda-feira.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Condição de Ser Homem

Respira connosco uma saudade escondida...desde o primeiro momento. Envelhece-nos um vazio, disfarçado dentro de nós - é aquele tempo que já foi. Apanhou-nos desprevenidos e fugiu para um passado terminado e sem retorno. A alegria de viver alimenta-se do nosso tempo e gasta-o sem hesitações, cavando impiedosamente o buraco das horas vividas e agora mortas. A nossa alegria vai adormeçendo com as noites e morrendo com os dias e o vazio cresce e nós escondemo-nos, mas já não o disfarçamos.

E é esta condição de existir que distingue os verdadeiros dos falsos homens. É neste fado que escolhemos o que somos e o que queremos ser.

Os Homens de Coragem e Vitória reconhecem o vazio dentro de si, mas aspiram à plenitude das coisas. Vivem para ela, reflectem-na nos seus pensamentos e agem em verdade com o que pensam. São aqueles que vêm o Mundo e os outros como um só. A Humildade é a sua fonte de Vida. Os outros a sua razão de viver. Por este ideal dispôem-se a sofrer penas, a combater os seus dias e a dar a sua alegria. No final do caminho o vazio já não é mais... encheu-se com a alegria dos outros e neles os seus passos continuam-se. São os Homens de Verdadeira Honra, inconformados com este mundo e dispostos a construi-lo e reconstrui-lo, à imagem de um outro melhor.

Outros há que se resvalam no vazio e cedem à morte do seu ser. São os homens da cobardia e derrota. Não aspiram, mas curvam-se para dentro de si. Sobrevivem em ganância, abstêem-se do pensamento e reagem apenas aos caprichos de um momento egoísta. Vêem neles o mundo todo, deixando os outros fora da equação. A mesquinhez é a sua fonte de sobrevivência. O vazio em si é a razão para não viver, mas antes para sub-viver. Colocam os outros ao seu dispôr e encontram na realidade os motivos para as suas acções e amoralidades. São homens pequenos e de falsidade, conformados com este mundo, cedendo ao seu vazio. Não agem... reagem. Não pensam... calculam. Não criam... apenas desgastam. São os construtores de si apenas... os verdadeiros sub-viventes. E no final, o seu vazio é tudo e nele tudo se fina em morte anunciada.

Hoje prevalece e dissemina-se a apologia do vazio por todo um povo pigmeu e triste - um povo de homens da terra.

Mas não cedamos! Encontremos ânimo nesta saudade que connosco respira e continuemos a obra, com mãos de Verdade e Honra - O Povo Dos Homens Na Terra .

terça-feira, 30 de junho de 2009

Mau e Caro, mas Nosso


Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamo-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro.

Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.

Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."

Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo.

Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.

Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".

Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.

Miguel Esteves Cardoso in Público.pt - 08.01.2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Homem de Carácter


Os homens de carácter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão reflectida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a acção até que ela se concretize.

(...) Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um facto, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o facto é o negativo. A vontade é o norte, a acção é o pólo sul. O carácter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só vêem na acção o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um facto, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e dái não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.
(...) Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a rectidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.

É uma desgraça recorrermos a factos para confirmação da nossa palavra e dignidade.

Ralph Waldo Emerson, in 'O Carácter'

quarta-feira, 18 de março de 2009

Apelo de um Português



A minha palavra será em forma de Apelo.

Vivemos hoje uma crise que comecou por ser financeira e que depressa passou também a ser económica, afectando já a vida de muitas famílias.
Ela é, em parte, consequência de uma outra crise, esta já antiga e muito mais grave. Ela tem a forma monstruosa de uma hidra, com um núcleo central e braços que se ramificam em apêndices. Um desses apêndices originou a actual doença.
O núcleo, mãe de todas as crises, foi criado, primeiro de forma lavrar, matreira e soez, depois de maneira avassaladora, criando dependências e submissões, por poderes com colossais recursos que estão omnipresentes em todos os Centros de Decisão. O núcleo, qual “Big Brother”, impôs a Ditadura do Relativismo.

Hoje, para a Sociedade Bem Pensante e Elitista que se considera política e socialmente correcta, a quem todos devem prestar vassalagem, tudo é relativo.
O Absoluto deixou de existir!
Os Ideais são tratados como múmias de um passado obscurantista.
Valores, como a Lealdade, a Honra, a Abenegação, a Amizade, a Coragem, o Respeito pela Palavra Dada, o Amor à Verdade, são desnaturados, pervertidos e ridicularizados!
Em todas as suas vertentes, o Materealismo e o Hedonismo, são os novos ídolos reinantes e adorados!
E Portugal?

O conceito de Nação/Pátria está depreciado e reduzido à ideia de que é apenas o lugar onde, por acaso, se nasceu.
Tenho a certeza que esta ideia redutora não é a de quem me entende.
O Portugal de Ontem, de Hoje e de Amanhã, conjugados e entrelaçados, é que formam o nosso conceito de Pátria.


Uma Nação que não venere a sua História, atraiçoa o seu Passado e comprometerá o seu Futuro.

Palavras escutadas num Apelo de um Português

terça-feira, 10 de março de 2009

O Eça de Hoje

“E os dois amigos sentaram-se num banco, junto de uma verdura que orlava a água de um tanque esverdinhada e mole.

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um olá! Acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Q faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…

- Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta – imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado – imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução – imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman…

Carlos ria:
- De modo que isto está cada vez pior…

- Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!

Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que é genuíno…

E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregando pelas encostas ressequidas e tisnadas do Sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palecetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga! (…)

- E aqui tens tu, Carlinhos, a que chegámos! Não há nada com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal(…).”

"Os Maias" de Eça de Queirós

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Qualidade, Fair-Play e Verdade


Sou portista da cidade do Porto. Sinto muito o meu clube e tenho o privilégio de o poder fazer ao vivo, nas bancadas do Estádio do Dragão. Assumo que muitas vezes o fervor pelo meu clube chega a influenciar o meu julgamento que se quer imparcial: os lançes polémicos e duvidosos, a qualidade de jogo das equipas, a comunicação social e, claro está, a prestação das arbitragens. Ainda assim, vejo nesta paixão cega dos adeptos pelos seus respectivos clubes, o sal e a pimenta que tornam o espetáculo do futebol precisamente algo mais que um simples espetáculo - uma vivência partilhada e rivalizada.

Encaro a minha vivência portista com uma atitude positiva e recuso qualquer rótulo de anti-qualquer coisa. A única coisa que sou é PRÓ-F.C. PORTO!
Gosto de Futebol! Aliás, gosto de Bom Futebol! E, para mim, Bom Futebol define-se essencialmente por 3 características: a Qualidade de futebol praticado pelos jogadores, treinados e comandados pelos seus treinadores, o Fair-Play genuíno dentro e fora do campo e a Verdade desportiva do jogo.

Chegados praticamente ao fim da primeira volta da nossa Liga Portuguesa de Futebol (não a de nenhuma bebida ou combustível), tento fazer um balanço imparcial, sob os 3 critérios mencionados.

Qualidade:
É importante distinguir bem entre a qualidade técnica individual dos jogadores a actuar no campeonato e a qualidade demonstrada pelas equipas em campo, responsabilidade dos treinadores.
Quanto á primeira, sinceramente, considero que o nível médio da qualidade dos jogadores não variou, em relação aos últimos anos. O FC. Porto segue uma política de formação de jogadores de idade jovem com enorme potencial de crescimento: Hulk, Fernando, Rolando, entre outros. Ao Benfica atrai mais a contratação de valores já credenciados, como Suazo, Reyes e Aimar, resultado de uma sede urgente de resultados positivos a curto-prazo. Quanto ao Sporting permanece fiel à sua estratégia, conseguindo manter os seus maiores valores na equipa: João Moutinho, Liedson e Vukcevic.
Não querendo desvalorizar as outras equipas do campeonato, salvo raras excepções, as mais-valias de cada uma delas resumem-se a jogadores emprestados ou vendidos a preços de saldo, provenientes precisamente dos chamados 3 grandes clubes - equipas como o Braga, Guimarães, Académica e Vitória de Setúbal, entre outros, fazem depender a qualidade do seu plantel da boa vontade dos 3 "Grandes".
Em relação à Qualidade demonstrada em campo, penso estar correcto em afirmar que a qualidade tem tendência para subir. Basta ver clubes, como o Leixões, Nacional e Braga (ainda que este último já não nos surpreenda tanto), a mirar constantemente o topo da classificação, ou então um Trofense, ou um Rio Ave a tirar pontos aos grandes clubes. Chegamos facilmente à conclusão que a Liga está mais competitiva e não se tenha dúvidas que o está, por cima: são os mais pequenos que estão mais fortes, não os grandes que enfraqueceram. A prova é que, internacionalmente, o Porto e Sporting, estão entre as 16 melhores equipas europeias e o Braga avança vitorioso, rumo à Bélgica.

Fair-Play:
Não o da "treta", mas o genuíno. Para mim é essencial encarar o jogo pelo o que ele é. Uma partida defutebol decide-se nos 90 minutos jogados e, fora daí sim, tudo o resto são tretas!
Falo de dois tipos de equipas: as equipas do "Querer" e as do "Não Querer". As do "Querer" querem sempre entrar em campo para ganhar! Querem a Vitória, os 3 pontos, procuram o golo e cumprem com o verdadeiro espírito do desporto e competição: querer ser melhor para ganhar. Pensassem todas as equipas assim e o nosso futebol seria ainda mais espetacular.
As do "Não Querer" simplesmente não querem entrar em campo para ganhar. Contentam-se com o não perder: não querem a Vitória, basta-lhes evitar a derrota; não querem os 3 pontos, basta-lhes 1; não procuram o golo, apenas procuram evitar que o adversário marque um. Estas equipas assumem, como princípio, que são piores que os outros e nem aspiram a querer ser melhor que o seu rival. Nelas há espaço para o Anti-Jogo, para as simulações, para as desejadas paragens de jogo que possam tirar minutos aos 90. Não só tiram minutos de jogo, como também tiram a vontade de um simples adepto querer gastar 15 ou 20 Euros num bilhete, para ver um jogo jogado em apenas 60 minutos úteis.
Aqui critico especialmente os treinadores. São eles os líderes das equipas. São eles que podem influenciar o verdadeiro espírito desportivo dos jogadores. São eles que decidem se a equipa entra em campo para tentar ganhar, ou para tentar que o outro não ganhe. No nosso campeonato tanto temos treinadores do "Querer", como do "Não Querer". Normalmente os do "Querer" permanecem ou avançam na carreira e os do "Não Querer" são despromovidos ou "psicologicamente chicoteados". O futuro está no querer.

Verdade:
Eis que chegamos ao tema que tanta tinta e teclas tem feito correr e bater no último ano! As grandes polémicas da nossa realidade de hoje giram sempre à volta da tão gasta "Verdade Desportiva"! Mas para mim, não há polémica nenhuma: a Verdade é clara e perceptível - a Verdade é redonda e é chutada por 22 indivíduos, em duas partes de 45 minutos. A Verdade provém dos dois pontos atrás mencionados: Qualidade do futebol jogado e o Fair-Play genuíno. É claro que a sorte ou azar tem sempre um pequeníssimo peso - há dias em que a bola simplesmente não entra, ou que um jogador mais valia ter ficado em casa a jogar Playstation, mas eu ainda sou daqueles que acreditam que os resultados não só se decidem no pé esquerdo fulminante do Hulk, na cabeça matreira do Liedson, nas fintas em velocidade do Reyes,nos golos constantes do Wesley, ou nas defesas fantásticas do Peskovic, mas também no golo falhado do Lisandro Lopez, no frango do Moreira, na falha de marcação do Grimmy, na mão na bola do Felipe Lopes, ou no fora de jogo assinalado ao Renteria.
Não quero acreditar que a Verdade seja jogada pela falta de Qualidade e Fair-Play, fora das quatro linhas. Urge-se falar das outras equipas que não jogam, apesar de estarem em campo: as da arbitragem. Vejo bem as pressões a que são sujeitas, não durante os 90 minutos de jogo, mas durante o resto dos 7 dias da semana até à próxima partida. Vejo bem o peso que um processo douradamente arbitrado, pode ter; ou que uma imprensa comprometida com o suposto lado da maioria que mais compra em quantidade (não tanto em qualidade), pode influir no pulmão de um juíz, que na hora de soprar o apito para marcar um penalty, seja duvidoso, seja indiscutível, lhe falta o ar. Até mesmo um relatório de arbitragem discutido na praça pública e a consequente jarra, tão temida pelos indefesos árbitros, pode tirar o ar a qualquer pessoa, dependendo do estádio e camisola em questão.
Estas são as minhas dúvida, enquanto portista, que muito me preocupam! Como adepto continuo a acreditar que tal não é possível e, que no final, o melhor clube, o que mais "quis", o que procurou sempre a Vitória, os 3 pontos, procurou sempre ser melhor que o outro, apesar dos que "não quizeram" e dos que o quizeram ser, mas sem bola e fora das quatro linhas; apesar de tudo isso, acredito que o melhor sairá vencedor.

Perdoem-me a extensão do texto! Foi a opinião e desabafo de um "dragão tripeiro" que gosta muito do futebol português e sente com a alma o seu clube:
Tenho a sorte de ser Portista! Não só sou dos que querem, como também sou dos que ganham, com Qualidade, Fair-Play e Verdade!

A Vencer desde 1893!!!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Jovens - Entre a Espada e a Parede

Existe vida nos jovens portugueses!

Este “grito” é sussurrado por muitos e ouvido por poucos. Para alguns, trata-se de uma falsa questão – a voz dos jovens está bem salvaguardada num Ministério da Juventude, nas juventudes dos partidos políticos, ou até nas associações académicas e outras organizações.
Para outros, a Juventude está perdida, completamente alheada da realidade e só resta ao país esperar uns anos para que ela simplesmente cresça e se torne completamente adulta.

Sendo assim, sinto-me encurralado entre a espada e a parede, obrigado a escolher uma delas. A espada aponta em direcção a uma atitude política activa que inevitavelmente nos obrigará a alinhar no autismo da partidocracia, instalada na nossa tão democrática Assembleia da República:
A esquerda, dita tolerante e universal, que assume a arrogância de se autoproclamar a única portadora natural dos valores de justiça social (todos os outros que não partilham a sua visão são retrógradas, reaccionários de vistas curtas); obriga “voluntariamente” os jovens a sair para as ruas, manifestar a sua indignação, "grafitar" paredes com frases profundas de indignação e aparecer na televisão, sempre acompanhados com os símbolos essenciais do seu "marketing": as cores vermelha e preta nas bandeiras, a irreverência de uns tambores e artes circenses de rua, a inevitável camisola com o Che estampado, o aspecto intelectual e esclarecido que uma barba bem despenteada e um belo par de óculos podem proporcionar. E um dia, percorridos muitos quilómetros de rua e gritaria, poder-se-á descansar numa bela cadeira de couro, nas trincheiras da bancada parlamentar do partido.

Mas, para quem não tem grande jeito nem paciência para malabarismos de rua, pode ainda recorrer às outras famílias partidárias, mais à direita. Aí não se pede muitos quilómetros nas pernas, mas apenas o estar no sítio certo, à hora certa, com um “cafezinho” pronto a servir e a disponibilidade total para tirar fotocópias e fazer recados ao seu superior e mentor partidário – ter um bom padrinho é meio caminho andado para a tão ansiada cadeira – entretanto, tira-se uma licenciatura por encomenda, porque ser Doutor dá outra credibilidade. Com uma boa cunha, o parlamento “tá no papo”.

Não querendo esta espada, resta-me a parede, onde me encosto à passividade e desinteresse total, ao mesmo tempo que vou engordando com tudo o que a televisão me alimenta. Eventualmente um dia abrirei os olhos, tornar-me-ei produtivo para a sociedade, pagarei impostos e descontarei para a segurança social. Serei finalmente um adulto de corpo e alma, mas sempre encostado à parede.

Em última análise, é a própria parede quem acaba por ajudar a manter a espada bem afiada.
No entanto, mesmo sendo ainda jovem, aprendi a dar valor ao carácter e mérito demonstrado por cada indivíduo nas suas acções. Chamem-me precoce, se assim o desejarem, mas recuso pegar na espada ou encostar-me à parede. Permaneço no limbo dos órfãos de uma Voz; daqueles que todos os dias lêem o jornal e vivem o País. Vivem-no para dentro, porque cá fora já existe quem “oficialmente” fale por eles. É a chamada democracia dos que a representam e não dos seus representados.

Nós, os jovens tolos que vivemos o nosso Portugal para dentro, contrariamente ao que se quer fazer crer, não somos uma espécie em vias de extinção, mas antes, um estado de alma em vias de expansão.

Para já, resta-nos sussurrar este “grito” até que alguém nos ouça. E se sussurrar não for suficiente, talvez escrever o seja:

E-X-I-S-T-E V-I-D-A E-M N-Ó-S.


Porto, 09/07/2008