"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Lembrar é Perder.

Os tempos de criança, sempre os tive como a altura da vida mais propícia à felicidade plena, precisamente, pelo simples facto de, durante eles, não se ter a tentação de pensar e calcular condições e critérios para se ser feliz.

Quando era menino, não tinha memórias ou recordações. Não as tinha, porque, antes desse tempo, eu simplesmente não era. Se hoje eu vivo preso ao que já fui e ao que quero ser, na infância eu simplesmente vivia todo o meu tempo, sem passado ou futuro – enchia o meu presente com a minha existência, em brincadeiras genuínas e imaginação livre – os sonhos eram vividos como os dias.

Aos olhos de um petiz tudo é grande e naturalmente bom. Conquistamos o mundo em cada alvorada promissora, colocando em cada gesto tudo o que somos, sentimos e pensamos – impomos a simplicidade da verdade à nossa realidade e à de quem nos rodeia, como se exigíssemos das coisas vivas e até das outras, as inanimadas, a sua entrega e rendição totais.

Talvez por isso, já adultos e vencidos, vemos no sorriso de uma criança a saudade incontornável de sermos realmente bons e arrogamo-nos a menosprezá-la, tentando assim convencermo-nos de que somos mais e melhor do que o que já fomos em tempos antigos, quando ainda não tinhamos um passado. No entanto, entre esse passado e o presente, escapou-nos aquele sorriso doce e meigo.

Deixámos de viver essa felicidade... apenas a lembramos. Algures pelo caminho começámos a pensá-la e, logo ali, sem darmos conta disso, perdêmo-la para sempre.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O PALHAÇO



O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco.E diz que não fez nada.
O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado.
O palhaço é um mentiroso.
O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto.
O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços.
O palhaço coloca notícias nos jornais.
O palhaço torna-nos descrentes.
Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si.

O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico, seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo.
Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa.
O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros, vociferando insultos.

O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas.
O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também.

O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem.
O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres.
O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada. Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar, como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria.
E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais, saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar. E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha.

O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político.
Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar.

A escolha é simples. Ou nós, ou o palhaço.

Mario Crespo in JN

terça-feira, 30 de março de 2010

NÃO HÁ PÁTRIA SEM HERÓIS.

ASSOCIAÇÃO PARA O MOMUMENTO DE HOMENAGEM AOS MILITARES DO PORTO QUE COMBATERAM NO ULTRAMAR

Na Cidade do Porto não há memorial que recorde os combatentes que nasceram neste Concelho, ao contrário de muitas povoações de Portugal, em que já existem Monumentos que perpetuam e honram a memória dos seus filhos que, na condição de Soldados, nas últimas décadas do Século XX, cumpriram o seu Dever e sacrificaram a vida no Ex-Ultramar.

Alguns camaradas de armas destes combatentes, não se conformaram com esta situação e propuseram-se reparar esta omissão. Com espírito de "Missão", meteram ombros à tarefa.
O primeiro passo foi criar uma Associação. Assim nasceu a denominada "Associação para o Monumento de Homenagem aos Militares do Porto que Combateram no Ultramar”.
Esta Associação tem como único objecto, erigir um Memorial, na cidade do Porto, que torne perene a Memória dos soldados portuenses que pereceram no cumprimento do seu Dever. Ela extinguir-se-á após a inauguração do Monumento.

Membros da Direcção da Associação começaram então a trabalhar na selecção de um local apropriado para erigir o Monumento. Dado que várias entidades deveriam aprovar e supervisionar este empreendimento, em todas as suas vertentes, a pesquisa teve que ser criteriosa e cuidada, o que causou demora inevitável.
Após inúmeras diligências efectuadas, a Direcção desta Associação acredita que o Projecto entrou agora na recta final.

O Memorial não será nem majestático, nem sumptuoso, mas em toda a Sua singeleza, será, com certeza, Digno. Não se abdicará de O inaugurar com pompa e circunstância.
Ele deverá ser edificado junto à Muralha Norte da Fortaleza de São João da Foz do Douro. Esta terá, assim, o Seu historial engrandecido e o Memorial ficará também muito bem acompanhado.

Os nomes dos combatentes mortos serão gravados no bronze do Memorial.

As entidades oficiais não nos prometeram nenhuma ajuda monetária ou outra.
Apelamos
, por conseguinte, ao auxílio de todos os Portugueses em geral e dos Portuenses, em particular.

A obra está a nascer. No entanto, para que ela cresça e se desenvolva, necessita da ajuda de todos aqueles que, ao se afirmarem Patriotas, reconhecem implicitamente que têm uma dívida de gratidão para com todos aqueles que combateram e tombaram em defesa da Pátria.

Foi para puderem concretizar a vossa ajuda, em termos monetários, que abrimos a conta Nº. 0006 2498 1089 com o NIB 0007 0000 0062 4981 0892 3, em nome da Associação Homenagem Militares – Porto, no Banco Espírito Santo – BES na delegação de S. João de Brito – Porto.
As pessoas que queiram emitir cheques, é favor endereçá-los para a sede da nossa Associação: Rua Álvares Cabral, 137 – 4050-041 Porto.
Recibos no montante das ofertas serão emitidos pela Associação.
Estamos a efectuar diligências para que as empresas também possam contabilizar os nossos recibos, ao abrigo da Lei do Mecenato. É um processo moroso, pleno de vicissitudes.

Deus Quer, o Homem Sonha, a Obra Nasce... - escrevia Fernando Pessoa.
A Obra terá que ser de todos nós.

Sede Social:
Rua Álvares Cabral, 137
4050 – 041 PORTO
Telefones para contacto: 965 211 013 – 964 076 876
E.mail:
militaresdoporto@gmail.com

terça-feira, 2 de março de 2010

Tempo de Voar bem mais Alto



Eis que termina o sonho!

A um portista custa mil vezes mais perder um campeonato que a outro qualquer adepto.
Nestes últimos anos, o hábito e acomodação às vitórias foram abrindo um fosso cada vez maior para algo inevitável e fatídico - a mágoa de não ser campeão.

Cresci a ver o FC Porto a crescer e tornar-se no clube mais vitorioso de Portugal, sem nenhum outro emblema chegar perto para lhe sequer fazer sombra.
Cresci a ver o meu clube a jogar o melhor futebol a nível europeu, relegando os seus rivais internos ao papel de figurantes e espectadores incrédulos, invejosos e ainda arrogantes, tanto o foram que ainda hoje são capazes de afirmar que não houve um único título ganho pelos dragões pelo seu simples mérito, o seu trabalho e profissionalismo.
Cresci habituado a ver o nome do meu clube ser arrastado na lama no meu próprio país, enquanto o seu emblema era elevado aos píncaros da Europa por todos os seus rivais internacionais.
Cresci a ver nascer na minha equipa grandes jogadores da história recente do futebol e lançarem-se na Europa, onde finalmente lhes era reconhecido o seu verdadeiro valor.
Cresci habituado a ir ao estádio festejar golos, vitórias, campeonatos, taças e principalmente... a ver o meu clube ganhar com orgulho, espírito de sacrifício e lealdade.

Ontem cresci mais um bocadinho. É também preciso perder e sentir o sabor amargo da derrota. Este ano o nosso campeonato parece definitivamente longe...mas sei que o meu clube saberá perder com honra e dignidade e renascerá para outros vôos futuros. Acabando com uma senda de vitórias caseiras, chega a altura de abrirmos caminho para uma nova epopeia europeia.
Portista não se cansa de ganhar...e não pára de crescer.


Assumindo que este ano não somos os melhores em Portugal, felicito quem o é: Benfica e Braga. Parabéns ao Sporting pela exibição de Domingo passado - justos vencedores. Agradeço-lhes como portista pela lição que nos deram - a da humildade. Talvez, após tantos anos a ganhar tanta coisa, nos tenhamos esquecido dela.

O sonho terminou. É tempo de aprender com os erros e crescer e voltar a sonhar...para voar...bem mais alto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Imaginem - Mário Crespo



Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento.
Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação.
Imaginem que os gestores públicos optavam por carros dez por cento mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em dez por cento.
Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam dez por cento também. Que retiravam dez por cento ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas.
Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta.
Imaginem que só eram usados em funções do Estado.
Imaginem que dispensavam dez por cento dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público.
Imaginem que gastavam dez por cento menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar.
Imaginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de dez por cento nas suas pensões. Em todas as suas pensões. Eles acumulam várias. Não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês.
Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha.
Imaginem que o faziam por consciência.
Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas.
Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam.
Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares.
Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir dez por cento o tempo de espera por uma sentença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos dez por cento do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas.
Imaginem remédios dez por cento mais baratos.
Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde.
Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros.
Imaginem uma Polícia dez por cento mais bem paga, dez por cento mais bem equipada e mais motivada.
Imaginem as pensões que se podiam actualizar.
Imaginem todo esse dinheiro bem gerido.
Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem dez por cento também e a economia a soltar-se à velocidade de mais dez por cento em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins.
Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar dez por cento as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguido pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal.
Imaginem que a histórica decisão de Fernando Pinto de reduzir em dez por cento os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem bons ou maus, é seguida pelas outras empresas públicas.
Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos.
Imaginem que país seremos se não o fizermos.

Mário Crespo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Espírito das Conferências


É altura de retomar os exemplos do passado.
É o momento de assumir novas responsabilidades e desafios.
É o presente de construir a visão do futuro:
Portugal...
É Hora!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Salve-se o Jogo...



Sou um adepto apaixonado por futebol, ferveroso seguidor do seu clube e amante incondicional da bola. Dos pontos altos da minha semana, um deles passa certamente por ir ao estádio (ainda que muitas vezes em horários incompreensiveis - Domingo às 21h15???) e vibrar com as jogadas, fintas, remates, os golos e toda a festa deste ritual quinzenal, como já tive oportunidade de descrever aqui há alguns meses atrás.

Mas, há alguns meses atrás o meu espírito alegrava-se, não apenas pelas vitórias do meu clube, como também pelo futebol jogado e discutido de então - os temas passavam sempre pelas tácticas discutíveis das equipas, o jogador A, B ou C que deveria ou não ser titular, naturalmente os erros de arbitragem inevitáveis e intrínsecos a qualquer jogo humano, os treinadores que estariam ou não à altura da equipa, o mesmo se aplicando aos presidentes e muitas outras conversas de café e de comentadores de televisão e imprensa. Que maravilha! Respirava-se futebol... vivia-se futebol... aspirava-se ao futebol... jogava-se futebol... dentro e fora das quatro linhas.

Eis que, volvido quase um ano, a bola rola, a romaria ao estádio mantém-se, as jogadas acontecem, os golos surgem e no final do jogo, fora das quatro linhas, o futebol termina, nada mais acontece que seja digno de ser considerado como parte do mundo da bola. Os assuntos do dia versam sobre novelas e episódios de um outro tipo de jogo que se vai fazendo longe dos relvados - é um jogo onde não há regras, nem espírito de vitória. É um jogo delineado à mesa com outro tipo de jogadores, definido nas secretárias de outro tipo de árbitros e que, irremediavelmente, termina dentro do campo verde, onde tudo se decide. Que desilusão! Hoje já não se respira futebol... suspira-se. Já não se vive futebol... assiste-se. Já não se aspira ao futebol... calcula-se.

Quem dera que a principal notícia fosse um Braga candidato ao título. Quem dera que o grande comentário fosse o ataque benfiquista goleador. Quem dera que a crónica se escrevesse sobre um Sporting a renascer. Quem dera que o destaque fosse para mais um grande golo do Hulk.
Não tomem este escrito como um desabafo faccioso e viciado de um portista. No início do texto não me referi ao meu FC Porto propositadamente. Sei reconhecer facilmente quando o meu clube não é o melhor em campo, tanto quanto sei reconhecer o mérito dos mais directos adversários. Considerem antes este artigo como um texto tendencioso de alguém que gosta do espetáculo dos 90 minutos, protagonizado pelos seus melhores actores. É que hoje falta-nos um dos seus melhores. Pergunto a qualquer benfiquista, sportinguista ou bracarense, se não gostava de poder ver de novo as grandes estiradas de Hulk e aqueles pontapés-canhão de pé esquerdo. Pergunto mais concretamente a qualquer benfiquista, se gostava de ver toda esta situação dúbia e incompreensível acontecer com o seu clube, impedindo um artista como o Saviola de jogar indefenidamente?

No final do dia, sobram apenas suspeições no ar, revolta dos adeptos, frustrações dos jogadores e agressões e ofensas entre clubes e seus seguidores.

É isto o futebol de Portugal! E nós somos todos com ele. Salve-se o jogo no estádio, nem que seja jogado à meia-noite de Segunda-feira.

INVICTUS



Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.


William Ernest Henley

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ISTO



Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MARROCOS - Desertos de Paz


Terra de poeira e pó, onde nos encontramos em cada pedra.


Que bom era soltar o peso de uma alma.
Viver os momentos que não são pensados,
Mastigados e digeridos – momentos de nada.
As horas que rodam sem passar o tempo,
Esvaziando o corpo de tudo o que não é sentir.

Toda a escrita é momentos de tudo,
Mastigados e cuspidos em borras de tinta.
Escrevo o que quero esvaziar da alma.

Senta-te nos meus ensaios,
Meus portos de abrigo seguros dolentes e preguiçosos.
Tirem-me o sal das ideias
E deixem-me nadar no que resta de mim,
Um mar de sonhos da terra
–Sonhos de pó e areia.

Sobre eles escrevo porque não os quero.
Os sonhos tapam a vista e turvam a alma.
E a alma turva é presa e não me solta
E escrevo, então, a alma, fora de mim.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Condição de Ser Homem

Respira connosco uma saudade escondida...desde o primeiro momento. Envelhece-nos um vazio, disfarçado dentro de nós - é aquele tempo que já foi. Apanhou-nos desprevenidos e fugiu para um passado terminado e sem retorno. A alegria de viver alimenta-se do nosso tempo e gasta-o sem hesitações, cavando impiedosamente o buraco das horas vividas e agora mortas. A nossa alegria vai adormeçendo com as noites e morrendo com os dias e o vazio cresce e nós escondemo-nos, mas já não o disfarçamos.

E é esta condição de existir que distingue os verdadeiros dos falsos homens. É neste fado que escolhemos o que somos e o que queremos ser.

Os Homens de Coragem e Vitória reconhecem o vazio dentro de si, mas aspiram à plenitude das coisas. Vivem para ela, reflectem-na nos seus pensamentos e agem em verdade com o que pensam. São aqueles que vêm o Mundo e os outros como um só. A Humildade é a sua fonte de Vida. Os outros a sua razão de viver. Por este ideal dispôem-se a sofrer penas, a combater os seus dias e a dar a sua alegria. No final do caminho o vazio já não é mais... encheu-se com a alegria dos outros e neles os seus passos continuam-se. São os Homens de Verdadeira Honra, inconformados com este mundo e dispostos a construi-lo e reconstrui-lo, à imagem de um outro melhor.

Outros há que se resvalam no vazio e cedem à morte do seu ser. São os homens da cobardia e derrota. Não aspiram, mas curvam-se para dentro de si. Sobrevivem em ganância, abstêem-se do pensamento e reagem apenas aos caprichos de um momento egoísta. Vêem neles o mundo todo, deixando os outros fora da equação. A mesquinhez é a sua fonte de sobrevivência. O vazio em si é a razão para não viver, mas antes para sub-viver. Colocam os outros ao seu dispôr e encontram na realidade os motivos para as suas acções e amoralidades. São homens pequenos e de falsidade, conformados com este mundo, cedendo ao seu vazio. Não agem... reagem. Não pensam... calculam. Não criam... apenas desgastam. São os construtores de si apenas... os verdadeiros sub-viventes. E no final, o seu vazio é tudo e nele tudo se fina em morte anunciada.

Hoje prevalece e dissemina-se a apologia do vazio por todo um povo pigmeu e triste - um povo de homens da terra.

Mas não cedamos! Encontremos ânimo nesta saudade que connosco respira e continuemos a obra, com mãos de Verdade e Honra - O Povo Dos Homens Na Terra .

terça-feira, 30 de junho de 2009

Mau e Caro, mas Nosso


Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamo-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro.

Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.

Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."

Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo.

Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.

Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".

Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.

Miguel Esteves Cardoso in Público.pt - 08.01.2009

quarta-feira, 3 de junho de 2009

SOCIETY by Eddie Vedder



Oh, it's a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free
Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...

When you want more than you have
You think you need...
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
Because when you have more than you think
You need more space.

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

There's those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that...

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

Society, have mercy on me
Hope you're not angry if I disagree...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...


Society by Eddie Vedder

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Homem de Carácter


Os homens de carácter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão reflectida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a acção até que ela se concretize.

(...) Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um facto, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o facto é o negativo. A vontade é o norte, a acção é o pólo sul. O carácter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só vêem na acção o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um facto, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e dái não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.
(...) Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a rectidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.

É uma desgraça recorrermos a factos para confirmação da nossa palavra e dignidade.

Ralph Waldo Emerson, in 'O Carácter'

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quatro Anos de Pura Barbaridade!


É dificil explicar o que é viver um jogo de bola e um clube.

Quem não entende, não gosta ou desconhece este jogo, tem tendência para minorizar aqueles, por eles considerados, "fanáticos" e "bárbaros" que não têm mais nenhuma paixão ou interesse na sua vida, onde gastar o seu tempo e suas emoções. São uns pobres simplórios, dotados de pouca cultura e inteligência, que agem como autênticos animais irracionais, a partir do momento em que o assunto de bola vem à baila.

Realmente é dificil explicar a estas pessoas, que me consideram tal ser limitado, vindo da profundidade das "massas" estupidificantes, o espectáculo que é ir ao Dragão de 15 em 15 dias. Até porque normalmente tais pessoas nunca levam a sério as bestas neolíticas da bola, nem querem gastar o seu precioso e racionalizado tempo a ouvir pessoas como eu.
Como é tão dificil, penso que o melhor é nem tentar explicar nada.

Quem gosta deste desporto, sabe que o futebol será sempre mais que uma bola e duas balizas. A beleza começa nas bancadas - as emoções dos adeptos, os desabafos dos pessimistas, as amizades dos vizinhos de cadeira, as frustrações das derrotas, as alegrias das vitórias, as cores das camisolas, os cânticos das claques, as coreografias dos inícios de jogo, os borracholas a tresandar a tinto, os velhotes que não param de criticar a própria equipa, os miúdos que se vestem a rigor e vibram ao colo do pai babado, os entendidos da táctica que não se calam, os namorados unidos pelo mesmo cachecol, até a raiva focalizada no homem do apito, enfim... Tudo seres reduzidos, entregues a instintos pouco dignos da cultura superior do ser-humano homo-sapiens-sapiens-sapiens-sapiens...

Mea Culpa, Professor!


No passado Domingo este ritual grotesco repetiu-se: Parece que um certo clube lá para os lados das terras onde ainda se come tripas (comida selvática), ganhou, pela quarta vez consecutiva, o campeonato nacional. De certo que não vale a pena referir nomes, nem gastar mais letras com esta barbaridade.

Permitam-me apenas esta pequena leviandade da minha parte:

OH MEU PORTO DE ETERNA MOCIDADE DIZ À GENTE O QUE É SER NOBRE E LEAL

...e já agora TETRA--CAMPEÃO!!!

Eh pá... é tão bom ser um animal portista!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

VALÊNCIA - Do Mito ao Futuro

VALÊNCIA
Será um vértice entre o Passado, a sua História e o seu Misticismo com o Futuro, e a sua audácia em criar mais e diferente.

Valência tem provavelmente o Santo Graal, cálice em ágata que teria sido utilizado por Jesus na Última Ceia, e especialistas reunidos neste domingo na cidade espanhola querem que a UNESCO o declare Património da Humanidade.
O Santo Graal é uma das mais importantes relíquias do cristianismo e a cidade espanhola de Valência, que afirma tê-lo, dedicou-lhe este fim-de-semana um congresso internacional, no 1750º aniversário da sua suposta chegada a Espanha.
Do congresso resultou uma petição, que se baseia "no conjunto de argumentos apresentados neste simpósio e dado que, pelo menos, pode-se demonstrar que o Santo Cálice de Valência foi o inspirador das narrativas medievais que deram lugar ao nascimento da literatura épica europeia", para que o objecto seja considerado pela UNESCO Património da Humanidade.

A relíquia, guardada numa capela especial na Catedral de Valência, tem 17 cm de altura e muitos especialistas questionam-se se é o mesmo usado por Cristo, principalmente porque está decorado com ouro e pedras preciosas.

"É compreensível esta desconfiança. Porque a todos nós vêm à mente as cenas pobres com os discípulos sentados no chão, e Jesus com um humilde cálice de barro. Mas não foi assim", disse o professor de história de Universidade de Valencia e historiador da catedral valenciana, Vicente Martínez. "O filho do carpinteiro escrevia em hebreu, era chamado de rabi (mestre em hebraico) e esteve com famílias com posses como a de Lázaro. É só consultar o Evangelho", afirmou.

A relíquia sagrada em si seria apenas a parte superior do cálice, em ágata, que os arqueólogos consideram de origem oriental, criada entre os anos 50 e 100 antes de Cristo. As asas e a base de ouro com pedras preciosas são do século XVI. O cálice teria sido enviado de Roma pelo mártir São Lourenço, em 238, para que ficasse protegido, já que o santo sofria uma perseguição que o levaria à morte.
in PUBLICO.PT - 10.11.2008


terça-feira, 21 de abril de 2009

BOLONHA - Clepsydra

ITÁLIA

Memórias escondidas pelas ruas... que se revelam na história gravada em cada pedra.

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo


Camilo Pessanha



terça-feira, 7 de abril de 2009

Novos Rastos



Talvez um dia alguém descubra o segredo dos que nada escondem.
Dos que percorrem um fio de existência
Que segura o fardo das mãos,
Enfraquecidas pela vida.
Talvez um dia alguém descubra o porquê de tanto sofrer
Por se ter um coração aberto ao mundo
– onde cabem todas as mãos que o procuram.
Talvez um dia alguém abra os olhos
E veja que o que sobrou de si nesta terra,
Mede-se pelo número de mãos que socorreu…
Não pelo que a mão guardou para si,
Mas pelo que de si ofereceu.

A fé, a luta e a mudança ninguém descobre.
Vivem-se no verbo Dar.
Ficará sempre um rosto de amor em nós
Que nos fará dar a mão e abrir o coração – novos rastos.

Talvez um dia alguém descubra
Que basta um que nada esconde
Para que outros que vivem, possam nascer.

23/05/2008

terça-feira, 31 de março de 2009

RIO GRANDE DO SUL - Canção do Exílio


BRASIL
Terra de contrastes e diferenças... mas a beleza, é toda ela igual.
Quem por lá passou, é certo que terá que voltar a passar.



Minha Terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

quarta-feira, 18 de março de 2009

Apelo de um Português



A minha palavra será em forma de Apelo.

Vivemos hoje uma crise que comecou por ser financeira e que depressa passou também a ser económica, afectando já a vida de muitas famílias.
Ela é, em parte, consequência de uma outra crise, esta já antiga e muito mais grave. Ela tem a forma monstruosa de uma hidra, com um núcleo central e braços que se ramificam em apêndices. Um desses apêndices originou a actual doença.
O núcleo, mãe de todas as crises, foi criado, primeiro de forma lavrar, matreira e soez, depois de maneira avassaladora, criando dependências e submissões, por poderes com colossais recursos que estão omnipresentes em todos os Centros de Decisão. O núcleo, qual “Big Brother”, impôs a Ditadura do Relativismo.

Hoje, para a Sociedade Bem Pensante e Elitista que se considera política e socialmente correcta, a quem todos devem prestar vassalagem, tudo é relativo.
O Absoluto deixou de existir!
Os Ideais são tratados como múmias de um passado obscurantista.
Valores, como a Lealdade, a Honra, a Abenegação, a Amizade, a Coragem, o Respeito pela Palavra Dada, o Amor à Verdade, são desnaturados, pervertidos e ridicularizados!
Em todas as suas vertentes, o Materealismo e o Hedonismo, são os novos ídolos reinantes e adorados!
E Portugal?

O conceito de Nação/Pátria está depreciado e reduzido à ideia de que é apenas o lugar onde, por acaso, se nasceu.
Tenho a certeza que esta ideia redutora não é a de quem me entende.
O Portugal de Ontem, de Hoje e de Amanhã, conjugados e entrelaçados, é que formam o nosso conceito de Pátria.


Uma Nação que não venere a sua História, atraiçoa o seu Passado e comprometerá o seu Futuro.

Palavras escutadas num Apelo de um Português