"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MARROCOS - Desertos de Paz


Terra de poeira e pó, onde nos encontramos em cada pedra.


Que bom era soltar o peso de uma alma.
Viver os momentos que não são pensados,
Mastigados e digeridos – momentos de nada.
As horas que rodam sem passar o tempo,
Esvaziando o corpo de tudo o que não é sentir.

Toda a escrita é momentos de tudo,
Mastigados e cuspidos em borras de tinta.
Escrevo o que quero esvaziar da alma.

Senta-te nos meus ensaios,
Meus portos de abrigo seguros dolentes e preguiçosos.
Tirem-me o sal das ideias
E deixem-me nadar no que resta de mim,
Um mar de sonhos da terra
–Sonhos de pó e areia.

Sobre eles escrevo porque não os quero.
Os sonhos tapam a vista e turvam a alma.
E a alma turva é presa e não me solta
E escrevo, então, a alma, fora de mim.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Condição de Ser Homem

Respira connosco uma saudade escondida...desde o primeiro momento. Envelhece-nos um vazio, disfarçado dentro de nós - é aquele tempo que já foi. Apanhou-nos desprevenidos e fugiu para um passado terminado e sem retorno. A alegria de viver alimenta-se do nosso tempo e gasta-o sem hesitações, cavando impiedosamente o buraco das horas vividas e agora mortas. A nossa alegria vai adormeçendo com as noites e morrendo com os dias e o vazio cresce e nós escondemo-nos, mas já não o disfarçamos.

E é esta condição de existir que distingue os verdadeiros dos falsos homens. É neste fado que escolhemos o que somos e o que queremos ser.

Os Homens de Coragem e Vitória reconhecem o vazio dentro de si, mas aspiram à plenitude das coisas. Vivem para ela, reflectem-na nos seus pensamentos e agem em verdade com o que pensam. São aqueles que vêm o Mundo e os outros como um só. A Humildade é a sua fonte de Vida. Os outros a sua razão de viver. Por este ideal dispôem-se a sofrer penas, a combater os seus dias e a dar a sua alegria. No final do caminho o vazio já não é mais... encheu-se com a alegria dos outros e neles os seus passos continuam-se. São os Homens de Verdadeira Honra, inconformados com este mundo e dispostos a construi-lo e reconstrui-lo, à imagem de um outro melhor.

Outros há que se resvalam no vazio e cedem à morte do seu ser. São os homens da cobardia e derrota. Não aspiram, mas curvam-se para dentro de si. Sobrevivem em ganância, abstêem-se do pensamento e reagem apenas aos caprichos de um momento egoísta. Vêem neles o mundo todo, deixando os outros fora da equação. A mesquinhez é a sua fonte de sobrevivência. O vazio em si é a razão para não viver, mas antes para sub-viver. Colocam os outros ao seu dispôr e encontram na realidade os motivos para as suas acções e amoralidades. São homens pequenos e de falsidade, conformados com este mundo, cedendo ao seu vazio. Não agem... reagem. Não pensam... calculam. Não criam... apenas desgastam. São os construtores de si apenas... os verdadeiros sub-viventes. E no final, o seu vazio é tudo e nele tudo se fina em morte anunciada.

Hoje prevalece e dissemina-se a apologia do vazio por todo um povo pigmeu e triste - um povo de homens da terra.

Mas não cedamos! Encontremos ânimo nesta saudade que connosco respira e continuemos a obra, com mãos de Verdade e Honra - O Povo Dos Homens Na Terra .

terça-feira, 30 de junho de 2009

Mau e Caro, mas Nosso


Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamo-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro.

Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.

Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."

Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo.

Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.

Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".

Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.

Miguel Esteves Cardoso in Público.pt - 08.01.2009

quarta-feira, 3 de junho de 2009

SOCIETY by Eddie Vedder



Oh, it's a mystery to me
We have a greed with which we have agreed
And you think you have to want more than you need
Until you have it all you won't be free
Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...

When you want more than you have
You think you need...
And when you think more than you want
Your thoughts begin to bleed
I think I need to find a bigger place
Because when you have more than you think
You need more space.

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

There's those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that...

Society, you're a crazy breed
Hope you're not lonely without me...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...

Society, have mercy on me
Hope you're not angry if I disagree...
Society, crazy indeed
Hope you're not lonely without me...


Society by Eddie Vedder

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Homem de Carácter


Os homens de carácter são a consciência da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa força é a resistência às circunstâncias. Os homens impuros julgam a vida pela versão reflectida nas opiniões, nos acontecimentos e nas pessoas. Não são capazes de prever a acção até que ela se concretize.

(...) Tudo na natureza é bipolar, ou tem um pólo positivo e um pólo negativo. Há um macho e uma fêmea, um espírito e um facto, um norte e um sul. O espírito é o positivo, o facto é o negativo. A vontade é o norte, a acção é o pólo sul. O carácter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magnéticas do sistema. Os espíritos fracos são atraídos para o pólo sul, ou pólo negativo. Só vêem na acção o lucro, ou o prejuízo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas; adoram os acontecimentos; vinculam a estes um facto, uma conexão, uma certa cadeia de circunstâncias e dái não passam. O grande homem sabe que os eventos são seus servos: estes devem segui-lo.
(...) Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a rectidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.

É uma desgraça recorrermos a factos para confirmação da nossa palavra e dignidade.

Ralph Waldo Emerson, in 'O Carácter'

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quatro Anos de Pura Barbaridade!


É dificil explicar o que é viver um jogo de bola e um clube.

Quem não entende, não gosta ou desconhece este jogo, tem tendência para minorizar aqueles, por eles considerados, "fanáticos" e "bárbaros" que não têm mais nenhuma paixão ou interesse na sua vida, onde gastar o seu tempo e suas emoções. São uns pobres simplórios, dotados de pouca cultura e inteligência, que agem como autênticos animais irracionais, a partir do momento em que o assunto de bola vem à baila.

Realmente é dificil explicar a estas pessoas, que me consideram tal ser limitado, vindo da profundidade das "massas" estupidificantes, o espectáculo que é ir ao Dragão de 15 em 15 dias. Até porque normalmente tais pessoas nunca levam a sério as bestas neolíticas da bola, nem querem gastar o seu precioso e racionalizado tempo a ouvir pessoas como eu.
Como é tão dificil, penso que o melhor é nem tentar explicar nada.

Quem gosta deste desporto, sabe que o futebol será sempre mais que uma bola e duas balizas. A beleza começa nas bancadas - as emoções dos adeptos, os desabafos dos pessimistas, as amizades dos vizinhos de cadeira, as frustrações das derrotas, as alegrias das vitórias, as cores das camisolas, os cânticos das claques, as coreografias dos inícios de jogo, os borracholas a tresandar a tinto, os velhotes que não param de criticar a própria equipa, os miúdos que se vestem a rigor e vibram ao colo do pai babado, os entendidos da táctica que não se calam, os namorados unidos pelo mesmo cachecol, até a raiva focalizada no homem do apito, enfim... Tudo seres reduzidos, entregues a instintos pouco dignos da cultura superior do ser-humano homo-sapiens-sapiens-sapiens-sapiens...

Mea Culpa, Professor!


No passado Domingo este ritual grotesco repetiu-se: Parece que um certo clube lá para os lados das terras onde ainda se come tripas (comida selvática), ganhou, pela quarta vez consecutiva, o campeonato nacional. De certo que não vale a pena referir nomes, nem gastar mais letras com esta barbaridade.

Permitam-me apenas esta pequena leviandade da minha parte:

OH MEU PORTO DE ETERNA MOCIDADE DIZ À GENTE O QUE É SER NOBRE E LEAL

...e já agora TETRA--CAMPEÃO!!!

Eh pá... é tão bom ser um animal portista!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

VALÊNCIA - Do Mito ao Futuro

VALÊNCIA
Será um vértice entre o Passado, a sua História e o seu Misticismo com o Futuro, e a sua audácia em criar mais e diferente.

Valência tem provavelmente o Santo Graal, cálice em ágata que teria sido utilizado por Jesus na Última Ceia, e especialistas reunidos neste domingo na cidade espanhola querem que a UNESCO o declare Património da Humanidade.
O Santo Graal é uma das mais importantes relíquias do cristianismo e a cidade espanhola de Valência, que afirma tê-lo, dedicou-lhe este fim-de-semana um congresso internacional, no 1750º aniversário da sua suposta chegada a Espanha.
Do congresso resultou uma petição, que se baseia "no conjunto de argumentos apresentados neste simpósio e dado que, pelo menos, pode-se demonstrar que o Santo Cálice de Valência foi o inspirador das narrativas medievais que deram lugar ao nascimento da literatura épica europeia", para que o objecto seja considerado pela UNESCO Património da Humanidade.

A relíquia, guardada numa capela especial na Catedral de Valência, tem 17 cm de altura e muitos especialistas questionam-se se é o mesmo usado por Cristo, principalmente porque está decorado com ouro e pedras preciosas.

"É compreensível esta desconfiança. Porque a todos nós vêm à mente as cenas pobres com os discípulos sentados no chão, e Jesus com um humilde cálice de barro. Mas não foi assim", disse o professor de história de Universidade de Valencia e historiador da catedral valenciana, Vicente Martínez. "O filho do carpinteiro escrevia em hebreu, era chamado de rabi (mestre em hebraico) e esteve com famílias com posses como a de Lázaro. É só consultar o Evangelho", afirmou.

A relíquia sagrada em si seria apenas a parte superior do cálice, em ágata, que os arqueólogos consideram de origem oriental, criada entre os anos 50 e 100 antes de Cristo. As asas e a base de ouro com pedras preciosas são do século XVI. O cálice teria sido enviado de Roma pelo mártir São Lourenço, em 238, para que ficasse protegido, já que o santo sofria uma perseguição que o levaria à morte.
in PUBLICO.PT - 10.11.2008


terça-feira, 21 de abril de 2009

BOLONHA - Clepsydra

ITÁLIA

Memórias escondidas pelas ruas... que se revelam na história gravada em cada pedra.

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo


Camilo Pessanha



terça-feira, 7 de abril de 2009

Novos Rastos



Talvez um dia alguém descubra o segredo dos que nada escondem.
Dos que percorrem um fio de existência
Que segura o fardo das mãos,
Enfraquecidas pela vida.
Talvez um dia alguém descubra o porquê de tanto sofrer
Por se ter um coração aberto ao mundo
– onde cabem todas as mãos que o procuram.
Talvez um dia alguém abra os olhos
E veja que o que sobrou de si nesta terra,
Mede-se pelo número de mãos que socorreu…
Não pelo que a mão guardou para si,
Mas pelo que de si ofereceu.

A fé, a luta e a mudança ninguém descobre.
Vivem-se no verbo Dar.
Ficará sempre um rosto de amor em nós
Que nos fará dar a mão e abrir o coração – novos rastos.

Talvez um dia alguém descubra
Que basta um que nada esconde
Para que outros que vivem, possam nascer.

23/05/2008

terça-feira, 31 de março de 2009

RIO GRANDE DO SUL - Canção do Exílio


BRASIL
Terra de contrastes e diferenças... mas a beleza, é toda ela igual.
Quem por lá passou, é certo que terá que voltar a passar.



Minha Terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

quarta-feira, 18 de março de 2009

Apelo de um Português



A minha palavra será em forma de Apelo.

Vivemos hoje uma crise que comecou por ser financeira e que depressa passou também a ser económica, afectando já a vida de muitas famílias.
Ela é, em parte, consequência de uma outra crise, esta já antiga e muito mais grave. Ela tem a forma monstruosa de uma hidra, com um núcleo central e braços que se ramificam em apêndices. Um desses apêndices originou a actual doença.
O núcleo, mãe de todas as crises, foi criado, primeiro de forma lavrar, matreira e soez, depois de maneira avassaladora, criando dependências e submissões, por poderes com colossais recursos que estão omnipresentes em todos os Centros de Decisão. O núcleo, qual “Big Brother”, impôs a Ditadura do Relativismo.

Hoje, para a Sociedade Bem Pensante e Elitista que se considera política e socialmente correcta, a quem todos devem prestar vassalagem, tudo é relativo.
O Absoluto deixou de existir!
Os Ideais são tratados como múmias de um passado obscurantista.
Valores, como a Lealdade, a Honra, a Abenegação, a Amizade, a Coragem, o Respeito pela Palavra Dada, o Amor à Verdade, são desnaturados, pervertidos e ridicularizados!
Em todas as suas vertentes, o Materealismo e o Hedonismo, são os novos ídolos reinantes e adorados!
E Portugal?

O conceito de Nação/Pátria está depreciado e reduzido à ideia de que é apenas o lugar onde, por acaso, se nasceu.
Tenho a certeza que esta ideia redutora não é a de quem me entende.
O Portugal de Ontem, de Hoje e de Amanhã, conjugados e entrelaçados, é que formam o nosso conceito de Pátria.


Uma Nação que não venere a sua História, atraiçoa o seu Passado e comprometerá o seu Futuro.

Palavras escutadas num Apelo de um Português

terça-feira, 10 de março de 2009

O Eça de Hoje

“E os dois amigos sentaram-se num banco, junto de uma verdura que orlava a água de um tanque esverdinhada e mole.

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um olá! Acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Q faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…

- Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta – imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado – imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução – imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman…

Carlos ria:
- De modo que isto está cada vez pior…

- Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!

Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que é genuíno…

E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregando pelas encostas ressequidas e tisnadas do Sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palecetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga! (…)

- E aqui tens tu, Carlinhos, a que chegámos! Não há nada com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal(…).”

"Os Maias" de Eça de Queirós

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Está bem...façamos de conta


Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média.

Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo.

Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus.

Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso.

Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

in JN 10/02/2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ausência de Si



Aquele que esconde o seu talento na terra
Descobre uma vida calma, uma vida morna,
Uma vida segura, certa e sem quedas.
Vive tranquilo sem medo de errar, por não chegar a tentar.
Vive um dia atrás do outro sem distinção,
Porque para ele todos os dias gastam-se iguais
E as noites são dormidas.

Não encontra dor, por não conhecer sonhar.
Não acha tristeza, mas ignora a alegria de dar.
Não vive prisão. Não vive amar.
Para ele não há horizonte em frente
Pois seus olhos rebaixam-se apenas à terra
E o céu é longe de se tocar.

É chegar ao fim da linha, olhar para trás…
E pedir a conta ao empregado
Depois de tomar o seu café.
Sem palavras nem saudade
Retira-se, terminando o cigarro
Sem diferença ou desprezo...pé ante pé.
Ninguém lembra quem lá foi.
Apenas uma cadeira vazia...
As cinzas de uma existência
De paz e melancolia.
Apenas borras de café.


Maio 2004 - Clã 21

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Dave Matthews Band de Volta a Portugal!

E eis que David Mateus e sua banda voltam à nossa Terra!

Memorizei bem as palavras dele, em Maio de 2007, no primeiro e único concerto do grupo aqui em Portugal: “Não imaginava que isto fosse assim! Se eu soubesse... Não vamos demorar muito tempo para cá voltar!”

Para quem não sabe, o David Mateus, para além de compôr letras e músicas fantásticas, também tem uma pequena fobia: andar de avião (como eu o percebo...).Muito por causa disso, os mais de 15 anos de existência da banda, foram vividos em solo do continente americano, até onde os barcos podem chegar, em tempo razoável.


O facto de ter vindo fazer 4 concertos em 2007 à nossa velhinha Europa, foi mesmo considerado a título excepcional - um dos quatro concertos foi em Lisboa, para grande tristeza dos “nuestros hermanos” espanhóis mal habituados, que estavam à espera que tal acontecesse em Madrid ou Barcelona. O que é facto é que o concerto em Portugal marcou tanto a banda (a nossa já reconhecida alegria e festa, enquanto público), que serviu para editar um álbum do espetáculo na íntegra.

Parece que a vontade de voltar a tocar para os portugueses chega a ser mais forte que o próprio medo de voar do David. Dia 11 de Julho cá te esperamos.


Irei sempre que recordar também um dos membros da banda, falecido o ano passado - LeRoy Moore, músico de sopro, desde saxofone, clarinete e trompete, até pífaro e flauta transversal.
Um génio que utlizava o seu jazz genuíno e muito próprio nas músicas da banda. Como ele próprio dizia, sentava-se na praia a curtir o seu sol e a sua margarita e soltava umas notas no seu amigo saxofone, que ia anotando para mais tarde darem alma à música da banda.
Tive o privilégio de o ver tocar há quase dois anos! Com certeza que será lembrado por todos, agora em Julho. As pessoas passam, mas a música permanece!


De entre as muitas fenomenais letras do David acabei por escolher uma que penso que irá ser tocada de novo daqui a uns meses. Retrata bem o espírito com que sempre vivi as melodias destes meninos, com os amigos, seja a ouvir, cantar ou tocar...são momentos que nunca se esquecem.

Sejam Benvindos de Volta!

We were above
You standing underneath us
We were not yet lovers
Dragons were smoked
Bumblebees were stinging us
I was soon to be crazy

Eat, drink and be merry
For tomorrow we die
cause were tripping billies

Were wearing nothing
Nothing but out shadows
Shadows falling down on the beach sand
Remembering once,Out on the beaches we wore
Pineapple grass bracelets

So why would you care
To get out of this place
You and me and all our freinds
Such a happy human race
cause were tripping billies

We are all sitting
Legs crossed round a fire
My yellow flame she dances
Tequila drinking oh our
Minds will wonder
To wonderous places

So why would you care
To get out of this place
You and me and all our friends
Such a happy human race
Eat, drink and be merry
For tomorrow we die

Tripping Billies

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Injusto Pecador

É um mundo desconcertadamente concertado! Acordo todas as manhãs com saudade de adormecer. O que me espera é mais um sol escondido e arrefecido.

Disserem-me um dia que a vida compromete-se com as escolhas e decisões que vamos arriscando e conquistando, nos nossos dias. Só que hoje, Risco é uma palavra condenada; a Conquista uma expressão antiquada; Escolha uma arte de simples egoísmo; Compromisso uma ingenuidade idealista; e a Vida afinal apenas flui por esses dias, em águas calmas e mornas, sem queimar ou gelar.

Não existe caminhos a tomar! Já dizia o outro "Camarada, o caminho faz-se caminhando!", num comodismo atroz, de quem não se guia, mas é guiado. E o que será, será! Não ocupes a tua cabeçinha com ideias, valores e fés. Ocupa-a antes com o que queres ter e com o que podes ter ainda mais e também até com o que não queres ter, mas um dia vais querer. Não interessa ser alguém...interessa parecer alguma coisa. E para tal esquece a Verdade e a Mentira, o Bem e o Mal, o Justo e o Injusto.

Para parecer não tens que escolher um lado, nem preto, nem branco. É mais fácil não escolher.
Para parecer, não tens que te comprometer com nada, nem com o que afirmas, nem com o que negas. É Mais fácil não comprometer.
Para parecer, não tens que arriscar, nem o que tens, nem o que aparentas ter. É mais fácil não arriscar.
Para parecer, não tens que conquistar, nem vitórias e muito menos derrotas. Descansa!

Do preto ou branco, cai-nos melhor o cinzento. Da Verdade e da Mentira preferimos a mais conveniente inverdade. Do Bem e do Mal usamos o politicamente correcto. Do Justo e do Injusto, vestimos o que está mais à nossa imagem e semelhança, conforme os dias.
Na verdade, ou melhor, no politicaente correcto, o Justo está fora de moda! E o Pecador é algo do tempo dos profetas de barbas longas e sujas e vestes rotas e poeirentas.


Ter e Parecer, Parecer e Ter, estes são os novos polos do nosso tempo que equilibram o limbo das nossas vidas. Podemos fazer uma asneirita ou uma maldadezinha desde que ninguém as veja "Psssst... fica caladinho que assim ainda te safas. O quê? Consciência pesada? Não sejas tolo pá...e não te esqueças de dizer que dormes todas as noites com ela bem tranquila!"

E assim, quem não escolhe nenhum dos lados, quem não arrisca ou assume a sua vida de Ser, no final também não terá que responder a ninguém sobre o que ele parece, nem dar satisfações sobre o que é, pois na verdade, o pecador não o é, apenas o aparenta ser - nega a sua própria natureza. Sem compromisso de Ser não há responsabilidades a assumir. E, confrontado com a Verdade, o Bem e a Justiça, sem respostas nem culpas, apresenta-se como um Injusto Pecador.

Nunca gostei de parecer o que não sou. Acredito no Ser, sem ter necessidade de o parecer. Ao longo do caminho que vou trilhando pelo meu mapa, ainda encontro quem goste de ser comigo. Tento reduzir o meu mundo a eles. Ainda acredito em profetas! Aqueles que assumem e pagam caro pela sua verdade que acreditam e profetizam. Cada vez menos são eles...cada vez mais silenciadas são as suas vozes...mas Injustos Pecadores, esses leva-os o vento para bem longe da história.


É este o meu mundo concertado! Deito-me todas as noites com saudade de acordar. O que me espera é mais uma lua cheia, que ilumina sempre, bem lá no alto, a minha Verdade de Apenas Ser.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sobre o Pai da Democracia Indígena:

Momentos de lucidez

Mário Soares, num dos momentos de lucidez que ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo, na última semana, para a voz da rua. A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante uma longa carreira política.

A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE e passar um bom par de anos, num exílio dourado, em hotéis de luxo de Paris.

A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma «brilhante» que se viu o processo de descolonização.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados Unidos financiassem o PS durante os primeiros anos da Democracia.

A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta durante a sua experiência governativa.

A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os «dossiers».
A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser primeiro-ministro depois de tão fantástico desempenho no cargo.

A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser agredido na Marinha Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da opinião pública e vencer as eleições presidenciais.

A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas eleições, fundar um grupo empresarial, a Emaudio, com «testas de ferro» no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais.

A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para financiar a sua segunda campanha presidencial.
A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador de Macau Carlos Melancia, um dos homens da Emaudio.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume ao caso Emaudio e ao caso Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os primeiros passos para uma Fundação na sua fase pós-presidencial.

A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui Mateus, «Contos Proibidos», que contava tudo sobre a Emaudio, e ter a sorte de esse mesmo livro, depois de esgotado, jamais voltar a ser publicado.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume às «ligações perigosas» com Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o filho no célebre acidente de avião na Jamba (avião esse carregado de diamantes, no dizer do Ministro da Comunicação Social de Angola).

A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem por Belém, visitar 57 países («record» absoluto para a Espanha - 24 vezes - e França - 21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo (mais de 992 mil quilómetros).

A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles, esse território de grande importância estratégica para Portugal.

A lucidez que lhe permitiu, no final destas viagens, levar para a Casa-Museu João Soares uma grande parte dos valiosos presentes oferecidos oficialmente ao Presidente da República Portuguesa.

A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes numa caixa-forte blindada daquela Casa, em vez de os guardar no Museu da Presidência da República.

A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas por dia de vigilância paga pelo Estado nas suas casas de Nafarros, Vau e Campo Grande.

A lucidez que lhe permitiu, abandonada a Presidência da República, constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de Direito privado, que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem apenas como única função visível ser depósito de documentos valiosos de Mário Soares. Os mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre do Tombo.

A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-sede da Fundação violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do IGAT, que decretou a nulidade da licença de obras.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo das velhas construções que ali existiam e que se encontrava no Arquivo Municipal fosse requisitado pelo filho e que acabasse por desaparecer convenientemente num incêndio dos Paços do Concelho.
A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao longo dos últimos anos, donativos e subsídios superiores a um milhão de contos.
A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários subsídios, um de quinhentos mil contos, do Governo Guterres, para a criação de um auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifício cedido pela Câmara de Lisboa.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e 2005, uma subvenção anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu filho era Vereador e Presidente.

A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe arrendasse e lhe pagasse um gabinete, a que tinha direito como ex-Presidente da República, na... Fundação Mário Soares.

A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a Fundação Mário Soares receba quase 4 mil euros mensais da Câmara Municipal de Leiria.

A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio Moderno, propriedade da família, sem licença municipal, numa altura em que o Presidente era... João Soares.

A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de pressões sobre o director do «Público», José Manuel Fernandes, a investigação jornalística que José António Cerejo começara a publicar sobre o tema.

A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a Presidente do Parlamento Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha, à vencedora Nicole Fontaine.

A lucidez que lhe permitiu considerar José Sócrates «o pior do guterrismo» e ignorar hoje em dia tal frase como se nada fosse.

A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um amigo, Manuel Alegre, para concorrer às eleições presidenciais uma última vez.

A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um frete ao Partido Socialista.

A lucidez que lhe permitiu ler os artigos «O Polvo» de Joaquim Vieira na «Grande Reportagem», baseados no livro de Rui Mateus, e assistir, logo a seguir, ao despedimento do jornalista e ao fim da revista.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois de apelar ao voto no filho, em pleno dia de eleições, nas últimas Autárquicas.

No final de uma vida de lucidez, o que resta a Mário Soares? Resta um punhado de momentos em que a lucidez vem e vai. Vem e vai. Vem e vai. Vai... e não volta mais.

12 Jan 2009 10:17 AM CST

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

COLÓNIA - Ignoto Deo


Eis a Catedral de Colónia!
Quem aqui entra, esquece uma terra cá fora e encontra um mundo a dois: Deus e o Homem.



Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

José Régio, in 'Biografia'


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Qualidade, Fair-Play e Verdade


Sou portista da cidade do Porto. Sinto muito o meu clube e tenho o privilégio de o poder fazer ao vivo, nas bancadas do Estádio do Dragão. Assumo que muitas vezes o fervor pelo meu clube chega a influenciar o meu julgamento que se quer imparcial: os lançes polémicos e duvidosos, a qualidade de jogo das equipas, a comunicação social e, claro está, a prestação das arbitragens. Ainda assim, vejo nesta paixão cega dos adeptos pelos seus respectivos clubes, o sal e a pimenta que tornam o espetáculo do futebol precisamente algo mais que um simples espetáculo - uma vivência partilhada e rivalizada.

Encaro a minha vivência portista com uma atitude positiva e recuso qualquer rótulo de anti-qualquer coisa. A única coisa que sou é PRÓ-F.C. PORTO!
Gosto de Futebol! Aliás, gosto de Bom Futebol! E, para mim, Bom Futebol define-se essencialmente por 3 características: a Qualidade de futebol praticado pelos jogadores, treinados e comandados pelos seus treinadores, o Fair-Play genuíno dentro e fora do campo e a Verdade desportiva do jogo.

Chegados praticamente ao fim da primeira volta da nossa Liga Portuguesa de Futebol (não a de nenhuma bebida ou combustível), tento fazer um balanço imparcial, sob os 3 critérios mencionados.

Qualidade:
É importante distinguir bem entre a qualidade técnica individual dos jogadores a actuar no campeonato e a qualidade demonstrada pelas equipas em campo, responsabilidade dos treinadores.
Quanto á primeira, sinceramente, considero que o nível médio da qualidade dos jogadores não variou, em relação aos últimos anos. O FC. Porto segue uma política de formação de jogadores de idade jovem com enorme potencial de crescimento: Hulk, Fernando, Rolando, entre outros. Ao Benfica atrai mais a contratação de valores já credenciados, como Suazo, Reyes e Aimar, resultado de uma sede urgente de resultados positivos a curto-prazo. Quanto ao Sporting permanece fiel à sua estratégia, conseguindo manter os seus maiores valores na equipa: João Moutinho, Liedson e Vukcevic.
Não querendo desvalorizar as outras equipas do campeonato, salvo raras excepções, as mais-valias de cada uma delas resumem-se a jogadores emprestados ou vendidos a preços de saldo, provenientes precisamente dos chamados 3 grandes clubes - equipas como o Braga, Guimarães, Académica e Vitória de Setúbal, entre outros, fazem depender a qualidade do seu plantel da boa vontade dos 3 "Grandes".
Em relação à Qualidade demonstrada em campo, penso estar correcto em afirmar que a qualidade tem tendência para subir. Basta ver clubes, como o Leixões, Nacional e Braga (ainda que este último já não nos surpreenda tanto), a mirar constantemente o topo da classificação, ou então um Trofense, ou um Rio Ave a tirar pontos aos grandes clubes. Chegamos facilmente à conclusão que a Liga está mais competitiva e não se tenha dúvidas que o está, por cima: são os mais pequenos que estão mais fortes, não os grandes que enfraqueceram. A prova é que, internacionalmente, o Porto e Sporting, estão entre as 16 melhores equipas europeias e o Braga avança vitorioso, rumo à Bélgica.

Fair-Play:
Não o da "treta", mas o genuíno. Para mim é essencial encarar o jogo pelo o que ele é. Uma partida defutebol decide-se nos 90 minutos jogados e, fora daí sim, tudo o resto são tretas!
Falo de dois tipos de equipas: as equipas do "Querer" e as do "Não Querer". As do "Querer" querem sempre entrar em campo para ganhar! Querem a Vitória, os 3 pontos, procuram o golo e cumprem com o verdadeiro espírito do desporto e competição: querer ser melhor para ganhar. Pensassem todas as equipas assim e o nosso futebol seria ainda mais espetacular.
As do "Não Querer" simplesmente não querem entrar em campo para ganhar. Contentam-se com o não perder: não querem a Vitória, basta-lhes evitar a derrota; não querem os 3 pontos, basta-lhes 1; não procuram o golo, apenas procuram evitar que o adversário marque um. Estas equipas assumem, como princípio, que são piores que os outros e nem aspiram a querer ser melhor que o seu rival. Nelas há espaço para o Anti-Jogo, para as simulações, para as desejadas paragens de jogo que possam tirar minutos aos 90. Não só tiram minutos de jogo, como também tiram a vontade de um simples adepto querer gastar 15 ou 20 Euros num bilhete, para ver um jogo jogado em apenas 60 minutos úteis.
Aqui critico especialmente os treinadores. São eles os líderes das equipas. São eles que podem influenciar o verdadeiro espírito desportivo dos jogadores. São eles que decidem se a equipa entra em campo para tentar ganhar, ou para tentar que o outro não ganhe. No nosso campeonato tanto temos treinadores do "Querer", como do "Não Querer". Normalmente os do "Querer" permanecem ou avançam na carreira e os do "Não Querer" são despromovidos ou "psicologicamente chicoteados". O futuro está no querer.

Verdade:
Eis que chegamos ao tema que tanta tinta e teclas tem feito correr e bater no último ano! As grandes polémicas da nossa realidade de hoje giram sempre à volta da tão gasta "Verdade Desportiva"! Mas para mim, não há polémica nenhuma: a Verdade é clara e perceptível - a Verdade é redonda e é chutada por 22 indivíduos, em duas partes de 45 minutos. A Verdade provém dos dois pontos atrás mencionados: Qualidade do futebol jogado e o Fair-Play genuíno. É claro que a sorte ou azar tem sempre um pequeníssimo peso - há dias em que a bola simplesmente não entra, ou que um jogador mais valia ter ficado em casa a jogar Playstation, mas eu ainda sou daqueles que acreditam que os resultados não só se decidem no pé esquerdo fulminante do Hulk, na cabeça matreira do Liedson, nas fintas em velocidade do Reyes,nos golos constantes do Wesley, ou nas defesas fantásticas do Peskovic, mas também no golo falhado do Lisandro Lopez, no frango do Moreira, na falha de marcação do Grimmy, na mão na bola do Felipe Lopes, ou no fora de jogo assinalado ao Renteria.
Não quero acreditar que a Verdade seja jogada pela falta de Qualidade e Fair-Play, fora das quatro linhas. Urge-se falar das outras equipas que não jogam, apesar de estarem em campo: as da arbitragem. Vejo bem as pressões a que são sujeitas, não durante os 90 minutos de jogo, mas durante o resto dos 7 dias da semana até à próxima partida. Vejo bem o peso que um processo douradamente arbitrado, pode ter; ou que uma imprensa comprometida com o suposto lado da maioria que mais compra em quantidade (não tanto em qualidade), pode influir no pulmão de um juíz, que na hora de soprar o apito para marcar um penalty, seja duvidoso, seja indiscutível, lhe falta o ar. Até mesmo um relatório de arbitragem discutido na praça pública e a consequente jarra, tão temida pelos indefesos árbitros, pode tirar o ar a qualquer pessoa, dependendo do estádio e camisola em questão.
Estas são as minhas dúvida, enquanto portista, que muito me preocupam! Como adepto continuo a acreditar que tal não é possível e, que no final, o melhor clube, o que mais "quis", o que procurou sempre a Vitória, os 3 pontos, procurou sempre ser melhor que o outro, apesar dos que "não quizeram" e dos que o quizeram ser, mas sem bola e fora das quatro linhas; apesar de tudo isso, acredito que o melhor sairá vencedor.

Perdoem-me a extensão do texto! Foi a opinião e desabafo de um "dragão tripeiro" que gosta muito do futebol português e sente com a alma o seu clube:
Tenho a sorte de ser Portista! Não só sou dos que querem, como também sou dos que ganham, com Qualidade, Fair-Play e Verdade!

A Vencer desde 1893!!!