"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

terça-feira, 31 de março de 2009

RIO GRANDE DO SUL - Canção do Exílio


BRASIL
Terra de contrastes e diferenças... mas a beleza, é toda ela igual.
Quem por lá passou, é certo que terá que voltar a passar.



Minha Terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

quarta-feira, 18 de março de 2009

Apelo de um Português



A minha palavra será em forma de Apelo.

Vivemos hoje uma crise que comecou por ser financeira e que depressa passou também a ser económica, afectando já a vida de muitas famílias.
Ela é, em parte, consequência de uma outra crise, esta já antiga e muito mais grave. Ela tem a forma monstruosa de uma hidra, com um núcleo central e braços que se ramificam em apêndices. Um desses apêndices originou a actual doença.
O núcleo, mãe de todas as crises, foi criado, primeiro de forma lavrar, matreira e soez, depois de maneira avassaladora, criando dependências e submissões, por poderes com colossais recursos que estão omnipresentes em todos os Centros de Decisão. O núcleo, qual “Big Brother”, impôs a Ditadura do Relativismo.

Hoje, para a Sociedade Bem Pensante e Elitista que se considera política e socialmente correcta, a quem todos devem prestar vassalagem, tudo é relativo.
O Absoluto deixou de existir!
Os Ideais são tratados como múmias de um passado obscurantista.
Valores, como a Lealdade, a Honra, a Abenegação, a Amizade, a Coragem, o Respeito pela Palavra Dada, o Amor à Verdade, são desnaturados, pervertidos e ridicularizados!
Em todas as suas vertentes, o Materealismo e o Hedonismo, são os novos ídolos reinantes e adorados!
E Portugal?

O conceito de Nação/Pátria está depreciado e reduzido à ideia de que é apenas o lugar onde, por acaso, se nasceu.
Tenho a certeza que esta ideia redutora não é a de quem me entende.
O Portugal de Ontem, de Hoje e de Amanhã, conjugados e entrelaçados, é que formam o nosso conceito de Pátria.


Uma Nação que não venere a sua História, atraiçoa o seu Passado e comprometerá o seu Futuro.

Palavras escutadas num Apelo de um Português

terça-feira, 10 de março de 2009

O Eça de Hoje

“E os dois amigos sentaram-se num banco, junto de uma verdura que orlava a água de um tanque esverdinhada e mole.

Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um olá! Acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chique. Carlos pasmava. Q faziam ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e xale, tomava o Sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes, arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos…

- Isto é fantástico, Ega!

Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas, sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro – modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha… Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado – exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta – imediatamente o janota estica-o e aguça-o, até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine, em estilo preciso e cinzelado – imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase, até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução – imediatamente põe, no programa dos exames de primeiras letras, a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportman…

Carlos ria:
- De modo que isto está cada vez pior…

- Medonho! É de um reles, de um postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!

Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que é genuíno…

E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregando pelas encostas ressequidas e tisnadas do Sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o Castelo, sórdido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palecetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde, entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquéctica e caturra, a velha Lisboa fidalga! (…)

- E aqui tens tu, Carlinhos, a que chegámos! Não há nada com efeito, que caracterize melhor a pavorosa decadência de Portugal(…).”

"Os Maias" de Eça de Queirós